A vida que mostramos e a vida que realmente vivemos.

Existe uma diferença enorme entre viver uma vida boa, e fazer questão de parecer que estamos vivendo uma vida boa. A primeira nos traz satisfação. A segunda, muitas vezes, nos coloca diante de uma necessidade constante de provar alguma coisa.

Vivemos em uma época em que muitas pessoas parecem estar mais preocupadas em, mostrar o que fazem, do que em descobrir por que fazem. A academia, a viagem, o carro, a profissão, o restaurante, a companhia e até os momentos de felicidade, passaram a ocupar um espaço importante, na construção da imagem que desejamos apresentar aos outros.

E não há nada de errado em gostar de uma boa viagem, cuidar do corpo, conquistar uma profissão ou compartilhar uma experiência. O problema começa quando essas coisas deixam de ser vividas por aquilo que representam para nós, e passam a existir principalmente pelo que representam diante dos outros.

É quando a vida começa a ser organizada, como uma espécie de conto de fadas particular. Tudo parece maravilhoso, todos os dias são especiais, todas as conquistas merecem uma fotografia. Mas, quando ninguém está olhando, será que existe a mesma satisfação?

Não se trata de condenar quem gosta de mostrar suas conquistas. Trata-se de refletir sobre o que acontece, quando a aparência se torna mais importante que a essência. Quando o status passa a ser o objetivo, corremos o risco de construir uma vida que impressiona muita gente, mas que pouco significa para nós mesmos.

1. Quando faço as coisas e o porquê?

Você já parou para pensar por que faz aquilo que faz?
Essa parece uma pergunta simples, mas pode revelar muito, sobre a maneira como estamos conduzindo a nossa vida. Muitas vezes, fazemos determinadas coisas sem nunca questionar o verdadeiro motivo. Vamos à academia porque queremos cuidar da saúde, ou porque desejamos que as pessoas percebam que estamos cuidando da saúde? Trabalhamos em determinada profissão, porque encontramos satisfação nela, ou porque gostamos do reconhecimento que ela proporciona?
A diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a experiência.

Imagine uma pessoa que frequenta a academia todos os dias, publica fotografias dos exercícios, e transmite a imagem de alguém extremamente comprometido com a saúde. Isso pode ser muito positivo. Entretanto, estar todos os dias em uma academia não significa, por si só, que alguém esteja se tornando uma pessoa saudável.

A saúde depende de um conjunto de hábitos. Alimentação, descanso, atividade física, equilíbrio emocional e outras escolhas, que também fazem parte desse processo. O local que frequentamos não é o que determina, sozinho, a qualidade da nossa saúde. É sim aquilo que fazemos com a nossa vida.

Não adianta passar horas em um ambiente que simboliza saúde e, fora dele, manter hábitos que prejudicam o próprio objetivo. Da mesma maneira, não adianta ocupar uma posição profissional admirada por muitos se, diariamente, sentimos desgosto por aquilo que fazemos.

A pergunta que precisamos fazer é: estou vivendo essa experiência porque ela me faz bem, ou porque gosto da imagem que ela produz?

Quando encontramos uma resposta honesta, começamos a perceber que muitas das coisas que fazemos, não precisam ser abandonadas. Precisam apenas recuperar o sentido.

2. Estar fazendo porque todos estão fazendo.

Existe uma infantilidade muito presente na vida adulta: acreditar que, se todo mundo está fazendo alguma coisa, devemos fazer também.

É como se a opinião coletiva tivesse se tornado, uma espécie de autorização para viver. Se todos estão viajando, precisamos viajar. Se todos estão na academia, precisamos estar lá. Se todos estão comprando determinado produto, precisamos comprá-lo. Se todos estão mostrando uma vida cheia de acontecimentos, sentimos que a nossa também precisa parecer movimentada. No final isso se torna para certas pessoas, uma necessidade vital, enquanto o que deve-se questionar é, "o quão útil isso está sendo para minha vida, e daqueles que me rodeiam?". Será que aquilo que faz sentido para a maioria, necessariamente faz sentido para mim?

Uma pessoa pode passar a vida inteira, frequentando lugares que não gosta, mantendo relações que não deseja, e perseguindo objetivos que nunca foram verdadeiramente seus. Tudo isso apenas porque aprendeu que, determinadas escolhas representam sucesso.

É assim que muitos acabam vivendo uma vida emprestada. Não porque alguém tenha obrigado, mas porque nunca se deram o trabalho de perguntar o que realmente queriam.

A academia pode ser um excelente lugar para cuidar da saúde. Uma viagem pode proporcionar experiências inesquecíveis. Uma profissão pode oferecer realização. Mas nenhuma dessas coisas, se torna valiosa simplesmente porque está na moda, ou porque recebe a aprovação dos outros.
Fazer algo apenas porque todos estão fazendo é uma maneira de terceirizar a própria vida.

E existe uma diferença entre inspirar-se em alguém, e viver em função do que alguém está fazendo. A inspiração nos ajuda a descobrir possibilidades. A necessidade de acompanhar os outros, nos faz perder a capacidade de escolher. Não precisamos deixar de fazer coisas boas. Precisamos apenas deixar de fazê-las, como se a nossa felicidade dependesse de acompanhar o ritmo alheio.

3. Sou muito mais um simples bem feito, do que um perfeito sem paixão

Existe uma grande diferença entre fazer algo bem feito, e fazer algo apenas para parecer perfeito. O primeiro exige dedicação. O segundo pode exigir apenas uma boa apresentação.

Uma pessoa pode ocupar um cargo importante, vestir-se impecavelmente, frequentar lugares sofisticados e publicar fotografias que despertam admiração. Mas, se não sente prazer naquilo que faz, talvez esteja apenas sustentando uma imagem. Da mesma forma, alguém pode exercer uma função simples, sem grande reconhecimento social, mas encontrar grande satisfação em realizar seu trabalho com cuidado, responsabilidade e dedicação. Qual dessas pessoas está vivendo uma experiência mais significativa?

A resposta não está na hierarquia do cargo, na quantidade de dinheiro ou na impressão que alguém causa. Está na relação que essa pessoa mantém com aquilo que faz. É possível ter uma profissão admirada, e não sentir nenhuma realização particular nela. Também é possível exercer uma atividade que poucos valorizam, e encontrar nela, motivos para acordar todos os dias com disposição.

Não estou dizendo que devemos abandonar nossos sonhos, ou nos acomodar com aquilo que temos. Buscar crescimento é importante. O que precisamos evitar é, transformar o crescimento em uma obrigação permanente, para parecer superiores. Porque, quando a busca pelo perfeito se torna mais importante que a paixão, até as conquistas começam a perder o sabor.

Mais vale um trabalho simples, feito com amor e competência, do que uma posição admirada por todos, mas vivida com desânimo. Mais vale uma vida que nos pertence, do que uma vida que precisamos sustentar diante dos outros.

4. Querer estar acima de todos.

Existe uma diferença entre querer ser bom naquilo que fazemos, e querer ser melhor que todo mundo. A primeira atitude pode nos levar ao aperfeiçoamento. A segunda, quando se transforma em necessidade de superioridade, pode nos afastar das pessoas, e de nós mesmos.

Todos podem desenvolver habilidades extraordinárias. Podemos ser excelentes investidores, administradores, criadores, comunicadores, professores ou profissionais de qualquer área. Mas isso não significa que precisamos transformar nossas capacidades, em uma disputa permanente pela superioridade. A vida não é uma competição em que todos, precisam ocupar o mesmo lugar.

O melhor investidor não é necessariamente, melhor que o melhor faxineiro. O melhor administrador não é necessariamente, melhor que o melhor porteiro. O melhor comunicador não é necessariamente, melhor que o melhor gari. Aqui não estamos falando simplesmente de cargos, e sim de pessoas. O melhor está dentro de cada um, e não no exterior. Cada pessoa pode desenvolver excelência naquilo que faz. E é essa excelência que merece reconhecimento.

Não estamos falando de desprezar profissões, de estabelecer hierarquias humanas, ou de dizer que todas as atividades, possuem as mesmas responsabilidades, remunerações ou exigências. Estamos falando que reconhecer que o valor de uma pessoa, não se resume ao status do seu cargo.

Uma pessoa pode exercer uma função de grande responsabilidade, e realizá-la de maneira medíocre. Outra pode exercer uma atividade simples, e realizá-la com dedicação admirável. O que devemos valorizar é a qualidade do trabalho, o compromisso, e a maneira como cada um, desempenha suas responsabilidades.

Aquele que precisa estar acima de todos, talvez ainda não tenha percebido que, ser bom não exige diminuir ninguém.

5. Faço por estar na moda, não porque preciso.

A moda tem uma influência enorme sobre as nossas escolhas. Ela determina o que vestimos, os lugares que frequentamos, os produtos que desejamos e, muitas vezes, até a maneira como acreditamos que devemos viver. Não há problema em acompanhar tendências. O problema surge, quando passamos a consumir experiências, sem compreender o que elas significam para nós.

Uma pessoa começa a frequentar determinado restaurante, porque todos estão indo lá. Compra um produto porque está em alta. Viaja para um destino, porque as redes sociais, transformaram aquele lugar em símbolo de sucesso. Faz determinada atividade, porque ela parece representar uma vida saudável, moderna ou admirável. Mas será que aquilo era realmente necessário? Existe uma diferença entre aproveitar uma oportunidade, e viver em função daquilo que está sendo valorizado pelos outros.

Uma viagem pode ser maravilhosa, mas não precisa ser realizada, apenas para produzir fotografias. Uma academia pode ser importante, mas não precisa ser frequentada, apenas para construir uma imagem. Uma boa profissão pode ser uma conquista, mas não precisa ser usada, como instrumento permanente de exibição. O valor de uma experiência, não está na quantidade de pessoas que gostariam de estar no nosso lugar, e sim no prazer que ela nos trás, e na intensidade em que a vivemos. Se o objetivo for só postar uma foto, ou mostrar para os outros que esteve alí. Vale a pena repensar o custo com o benefício.

Imagine alguém que visita uma cidade incrível a trabalho. Conhece lugares maravilhosos, mas passa os dias submetido a situações desagradáveis. Ou alguém que tem a oportunidade de fazer um passeio extraordinário, mas precisa suportar uma companhia, que não desejava ao seu lado. Por fora, tudo parece perfeito. Por dentro, talvez exista apenas, a vontade de ir embora dali.

É importante aproveitar as oportunidades que a vida oferece. Mas precisamos aprender a distinguir, uma experiência que realmente nos faz bem, daquela que estamos suportando apenas para dizer que estivemos ali. Nem tudo o que parece maravilhoso para os outros, precisa ser maravilhoso para nós.

6. Ser o melhor naquilo que faz, independentemente do que seja.

Talvez uma das maiores mudanças que podemos fazer em nossa maneira de viver, seja parar de confundir status com excelência. O status está relacionado à posição que ocupamos, ao reconhecimento que recebemos e à imagem que construímos. A excelência está relacionada à maneira como desempenhamos aquilo que fazemos. Uma pessoa pode ser excelente na profissão que exerce, independentemente de ela ser admirada ou não pela sociedade.

O melhor profissional não é necessariamente, aquele que ocupa o cargo mais alto. É aquele que procura realizar seu trabalho com competência, responsabilidade e dedicação.

Podemos encontrar excelência em uma sala de reuniões, em um escritório, em uma cozinha, em uma oficina, em uma escola, em um hospital, em um trabalho simples, ou em qualquer outro lugar onde alguém esteja disposto, a fazer bem aquilo que lhe cabe.

O melhor motorista, o melhor gari, o melhor cozinheiro, o melhor eletricista, o melhor porteiro, o melhor office boy, o melhor professor. Todos podem ser excelentes no que fazem, e se sentirem muito bem, ao final de mais um dia de tarefas executadas. E não existe nada de inferior em exercer uma atividade, que não possui grande prestígio social. O que torna uma pessoa admirável, não é apenas o que ela faz, mas a maneira como faz.

É claro que as profissões possuem diferentes níveis de responsabilidade, formação e remuneração. Isso faz parte da organização da sociedade. Mas não precisamos transformar essas diferenças, em uma medida do valor humano. Quando alguém realiza seu trabalho com dedicação, contribui para o mundo de uma maneira que merece respeito. Talvez devêssemos parar de perguntar apenas, qual é a profissão de uma pessoa, e começar a observar como ela desempenha aquilo que faz. Porque ser o melhor naquilo que fazemos, é uma conquista que não depende de estar acima de ninguém.

7 - A vida dos sonhos que nem sempre é vivida.

As redes sociais criaram uma vitrine permanente da vida humana. Todos parecem estar viajando, conquistando, sorrindo, celebrando e vivendo experiências extraordinárias. Mas uma fotografia não mostra uma vida inteira.
Ela mostra um instante escolhido. Por trás de uma publicação que transmite felicidade, pode existir uma pessoa enfrentando dificuldades que ninguém conhece. Por trás de uma viagem maravilhosa, pode existir um relacionamento cheio de conflitos. Por trás de uma profissão admirada, pode existir alguém que não encontra satisfação no seu trabalho. Por trás de uma vida aparentemente perfeita, pode existir solidão, tristeza e um profundo sentimento de vazio.

Não podemos afirmar que toda pessoa que publica coisas boas, está escondendo sofrimento. Seria injusto. Muitas pessoas realmente vivem experiências felizes, e gostam de compartilhá-las. O que precisamos compreender é, que a aparência de felicidade, não é uma prova de felicidade.
Uma vida simples, com amor, carinho e tranquilidade, pode ser muito mais significativa, do que uma vida cheia de riquezas, mas sem direção.

Não há nada de errado em desejar conforto, prosperidade e boas experiências. O problema é quando passamos a acreditar que essas coisas, por si mesmas, são suficientes para nos completar. A felicidade não precisa ser exibida para existir. E, quando a nossa vida começa a depender da aprovação dos outros, corremos o risco de deixar de perceber aquilo que realmente nos faz bem.

8 - Quando a busca nunca termina.

Existe também aquela pessoa que está sempre buscando alguma coisa. Busca uma casa melhor, um carro melhor, uma profissão melhor, uma viagem melhor, uma companhia melhor. E, quando consegue, logo começa a procurar outra coisa. Não há problema em desejar crescimento. O problema é quando nenhuma conquista, consegue produzir satisfação.

A pessoa passa a vida inteira acreditando que a felicidade, está na próxima realização. Quando chega lá, descobre que precisa de mais alguma coisa. E assim, a vida se transforma em uma sequência de busca de objetivos que nunca terminam. É como correr atrás de um horizonte: quanto mais caminhamos, mais ele parece se afastar, ou de uma linha de chegada, que se move constantemente.

A busca constante pode ser uma maneira de preencher um vazio, que não está necessariamente relacionado, àquilo que estamos tentando conquistar. Talvez a pessoa não precise de uma nova viagem. Talvez precise compreender, por que não consegue aproveitar a vida que já tem. Talvez não precise de uma nova profissão. Talvez precise descobrir, o que realmente espera do trabalho. Talvez não precise de mais reconhecimento. Talvez precise aprender a reconhecer o próprio valor.

O problema não está em querer mais. Está em não conseguir encontrar significado no que já foi conquistado. Porque, quando a vida inteira é dedicada à busca, podemos chegar ao fim dela com muitas realizações, e poucas experiências que realmente nos fizeram felizes.

Conclusão: O que vale a pena mostrar?

No fim das contas, o status pode até chamar a atenção, mas não é ele que determina a qualidade da nossa vida. Podemos mostrar uma academia, uma viagem, um cargo, uma conquista, uma fotografia em um lugar maravilhoso. Podemos compartilhar aquilo que nos faz felizes. Tudo isso faz parte da vida. Mas precisamos ter cuidado para não transformar a nossa existência, em uma apresentação permanente. Porque, quando só buscamos o status, começamos a fazer as coisas para sermos vistos, e não para vivê-las. Passamos a escolher experiências pelo reconhecimento que elas produzem. A frequentar lugares pelo que representam. A buscar profissões pelo prestígio. A construir relações pela aparência. A perseguir conquistas que nem sequer sabemos se desejamos.

E, nessa busca, podemos acabar esquecendo uma coisa muito importante: a nossa vida não precisa impressionar ninguém para ter valor. Talvez o verdadeiro sucesso, esteja em conseguir olhar para aquilo que fazemos, e sentir que existe sentido ali. Em trabalhar em algo que nos proporciona satisfação. Em cuidar da saúde porque queremos viver melhor, e não apenas parecer saudáveis. Em viajar porque desejamos conhecer o mundo, e não porque precisamos mostrar que estivemos lá. Em construir relações que nos tragam carinho, respeito e companhia verdadeira.

Mais vale uma vida simples, vivida com amor, do que uma vida cheia de aparências e vazia de significado. Mais vale um profissional que encontra prazer em fazer bem o seu trabalho, do que alguém que ocupa uma posição admirada, mas não consegue encontrar satisfação no que faz. Mais vale uma conquista que nos traz realização, do que uma conquista que serve apenas, para despertar a admiração dos outros.

E, se existe uma coisa que devemos aprender, é que não precisamos ser melhores que ninguém, para sermos excelentes. O melhor faxineiro pode encontrar orgulho naquilo que faz. O melhor porteiro pode sentir satisfação em seu trabalho. O melhor gari pode exercer sua profissão com dignidade e dedicação. O melhor administrador pode realizar sua função com competência. O melhor comunicador pode usar sua habilidade, para contribuir com a vida de outras pessoas.

Todos podem ser bons. Todos podem ser excelentes. Todos podem encontrar significado naquilo que fazem. A verdadeira questão não é estar acima dos outros. É estar à altura daquilo que somos capazes de estar e de fazer. E talvez seja justamente aí, que esteja a diferença entre quem vive para mostrar, e quem vive para realizar.

Porque, no final, o status pode até fazer barulho. Mas é a satisfação de ter vivido com verdade, que permanece quando já não existe ninguém para aplaudir.

Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.