Viver é mais do que deixar os dias passarem.

Você já parou para pensar no que cabe em um minuto? Uma palavra de carinho, uma pergunta importante, um abraço, uma decisão. Em uma hora, podemos aprender algo, que muda nossa maneira de enxergar o mundo. Em um dia, podemos conhecer alguém, que fará parte da nossa história. E, ao longo dos meses e dos anos, vamos construindo aquilo que chamamos de vida.

Nem sempre percebemos, mas o tempo está presente em tudo: no que começa, no que termina, e no que ainda estamos tentando compreender. Às vezes, parece correr depressa demais. Em outras, demora a passar. Mas será que ele é mesmo nosso adversário? Talvez possamos enxergá-lo de outra maneira: como um aliado permanente, que não escolhe por nós, mas nos oferece oportunidades de aprender, sentir, mudar e viver.

1 — O tempo, ah, o tempo.

Ah, o tempo… Quantas vezes pedimos que ele passe rápido, apenas para depois desejar que volte? Queremos que a semana termine, que as férias cheguem, que uma fase difícil acabe. Nessa espera pelo próximo acontecimento, podemos deixar de perceber o que já está acontecendo.

É agora que a vida encontra espaço. No café tomado com calma, na conversa inesperada, no estudo que desperta curiosidade, no silêncio que ajuda a organizar os pensamentos. Nem todo momento precisa ser extraordinário para ter valor.

Cada segundo, minuto, hora, dia, mês e ano compõe nossa existência. Reconhecer isso não significa viver preocupado com o relógio, mas prestar mais atenção àquilo que fazemos, enquanto seus ponteiros avançam. O tempo se torna aliado, quando deixamos de apenas contar sua passagem, e começamos a participar dela.

2 — Acumular tempo ou acumular vivências?

Completar mais um ano de vida é importante, mas o que temos colocado dentro dos anos que completamos? Não se trata de colecionar viagens, conquistas ou histórias impressionantes. Acumular vivências, é permitir que as experiências nos envolvam, e nos ensinem alguma coisa.

Estudar, por exemplo, é dedicar parte do nosso tempo, a descobrir algo que nos interessa. É reconhecer que ainda não sabemos tudo, e que sempre existe uma possibilidade de ampliar nossos horizontes. Aprender pode acontecer em um livro, em uma sala de aula, no trabalho ou numa conversa com alguém cuja realidade, é diferente da nossa.

Também acumulamos vivências quando questionamos: “Qual é o meu propósito? O que tem sentido para mim? Minhas escolhas se parecem com aquilo em que acredito?”. Não precisamos encontrar todas as respostas de imediato. Algumas perguntas merecem nos acompanhar por um tempo.

Mais do que somar anos, podemos construir uma história, na qual tenhamos estado verdadeiramente presentes.

3 — Quando desvalorizo o meu tempo.

Desvalorizo meu tempo, quando passo a viver apenas no automático, sem perceber por que faço o que faço. Quando adio indefinidamente aquilo que importa, alimento comparações que me diminuem, ou permaneço preso a expectativas que nem sequer são minhas.

Mas é preciso cuidado: descansar não é desperdiçar tempo. Não fazer nada por alguns instantes, pode ser justamente o que precisamos, para recuperar as forças. Nosso valor não depende de uma agenda cheia, e a vida não precisa se transformar, numa corrida por produtividade.

Talvez a pergunta mais honesta seja: “A maneira como tenho vivido, respeita minhas necessidades, meus valores, e as pessoas que são importantes para mim?”.

Valorizar o tempo também é reconhecer limites, pedir ajuda, dizer não quando necessário, e reservar espaço para o que nos faz bem. Nem sempre podemos mudar toda a rotina, mas pequenas escolhas podem devolver sentido a partes do nosso dia.

4 — As obrigações que nos fazem esquecer das belezas da vida.

Há contas a pagar, compromissos a cumprir, tarefas domésticas, responsabilidades profissionais, e pessoas que dependem de nós. Tudo isso é real. Não seria justo fingir que, basta querer para viver com leveza o tempo inteiro.

Ainda assim, no meio das obrigações, podemos tentar preservar alguns encontros com a beleza. Perceber a luz entrando pela janela. Ouvir uma música com atenção. Perguntar a alguém como foi seu dia, e realmente escutar a resposta.

Conversar é uma dessas possibilidades. Falar o que pensamos, com respeito, e permanecer abertos ao que os outros têm a dizer, nos aproxima. Às vezes, uma conversa não resolve um problema, mas faz com que ninguém precise carregá-lo sozinho.

Também precisamos de espaço para sentir. Há acontecimentos agradáveis e desagradáveis, provocados por nossas atitudes, ou pelas atitudes dos outros. Nem toda dor traz uma lição clara, nem precisa ser justificada. Ainda assim, podemos acolher o que sentimos e, com o tempo, compreender como essas experiências atravessam nossa história.

Sorrir ou chorar faz parte desse movimento. Expressar nossas emoções, não nos torna menos fortes; permite que sejamos sinceros, com aquilo que estamos vivendo.

5 — Se eu viver a vida dos sonhos.

Como seria a vida dos seus sonhos? Talvez envolva estabilidade, saúde, liberdade, uma família por perto, ou a possibilidade de trabalhar com algo que você ama. Sonhar nos ajuda a reconhecer desejos, e a escolher caminhos.

O problema começa, quando colocamos toda a felicidade no futuro: “Vou viver de verdade quando conseguir aquilo”. E, depois de uma conquista, aparece outra condição. Assim, a vida sonhada, permanece sempre adiante, enquanto a vida possível, fica esperando nossa atenção.

Podemos buscar o que desejamos, sem desprezar o presente. Há alegrias que não precisam aguardar o cenário perfeito: aprender algo novo, compartilhar uma refeição, demonstrar afeto, caminhar ao lado de alguém querido.

Amar também faz parte dessa vida. É oferecer cuidado e respeito a outras pessoas, e aos seres com quem dividimos o mundo. É, igualmente, reconhecer que merecemos receber afeto. Buscar relações recíprocas, não significa cobrar amor como pagamento, mas compreender que nós também precisamos de acolhimento.

Talvez viver a vida dos sonhos, comece por descobrir quais sonhos, são realmente nossos — e quais gestos já podemos transformar em realidade.

6 — Estar disposto a dar o seu melhor.

Dar o melhor de si não significa acertar sempre, ser incansável ou estar bem todos os dias. Nosso melhor muda conforme nossas condições. Em alguns momentos, será realizar algo grandioso. Em outros, será cumprir uma pequena tarefa, reconhecer um erro, ou encontrar coragem para recomeçar.

Essa disposição aparece nas atitudes: estudar com interesse, questionar com honestidade, conversar com abertura, amar com respeito e agir com responsabilidade. Aparece também quando procuramos ser melhores para o mundo, sem esquecer que fazemos parte dele e merecemos cuidado.

Não há garantia de que toda boa ação, será recompensada. Ainda assim, nossas escolhas podem tornar mais humana, a realidade ao nosso redor. Uma atitude generosa não transforma tudo, mas pode transformar o dia de alguém.

Enfim, viver é participar. É aproveitar o tempo que temos, não para provar nosso valor a cada instante, mas para expressar, tanto quanto possível, aquilo em que acreditamos.

Conclusão — A escolha de estar presente.

O tempo pode ser nosso aliado permanente, quando compreendemos que viver não é apenas atravessar dias, cumprir obrigações, e esperar pelo próximo acontecimento. Viver é aprender, questionar, sentir, sorrir, chorar, conversar e amar. É reconhecer que nossa existência tem importância, e que nossas atitudes produzem efeitos sobre nós, e sobre os outros.

Não basta apenas estar de pé; é necessário estar consciente da própria presença no mundo. Essa consciência, porém, não exige que cada segundo produza um resultado. Há valor no esforço, mas também no descanso. Há sentido nas conquistas, e nos momentos simples que quase ninguém vê.

Cada momento que vivo pode ser útil ou inútil: quem escolhe como vai ser? Nem tudo está sob meu controle, e nem sempre posso escolher as circunstâncias. Ainda assim, dentro das possibilidades que tenho, posso decidir onde colocar minha atenção, que atitudes cultivar, e a que desejo dedicar meu tempo.

O relógio continuará avançando. Minha escolha é procurar não estar ausente da vida, enquanto ela acontece.

Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.