Uma Conversa Sobre a Vida Que Chamamos de Nossa.

Se alguém lhe perguntasse, agora, o que realmente faz sentido para você, o que responderia? Talvez falasse da família, de um sonho, da fé, do trabalho ou da vontade de viver em paz. Talvez ficasse em silêncio. Não por falta de uma resposta, mas porque algumas perguntas parecem simples, até o momento em que tentamos respondê-las com sinceridade.

E, antes mesmo de encontrar uma resposta, outra dúvida aparece: que diferença faz algo ter sentido ou não? A vida deixa de acontecer quando não conseguimos explicá-la? A dor diminui quando descobrimos sua origem? Uma conquista se torna mais valiosa porque alguém nos ensinou a desejá-la?

Chegamos a um mundo que já tinha nomes, regras, crenças, conflitos e expectativas. Antes de podermos escolher, já estavam nos dizendo o que era certo, o que era importante e o que deveríamos buscar. Aprendemos a viver com quem também havia aprendido com outras pessoas. E, nesse movimento, fomos construindo aquilo que hoje chamamos de “eu”.

Mas quanto desse eu foi escolhido? Quanto foi recebido? E quanto continua sendo repetido, apenas porque nunca paramos para perguntar, se ainda faz sentido?

1. O que realmente faz sentido?

Normalmente, dizemos que alguma coisa faz sentido, quando ela combina com o que conhecemos, acreditamos ou esperamos. Mas, se nossos conhecimentos e nossas crenças foram construídos a partir do que recebemos do mundo, será que reconhecer um sentido é, encontrar uma verdade própria, ou apenas identificar algo familiar?

Talvez muitas das nossas certezas sejam ideias antigas, que aprenderam a falar com a nossa voz.

Isso não significa que tudo o que aprendemos seja falso ou inútil. Significa apenas que aprender alguma coisa, não é o mesmo que escolhê-la conscientemente. Podemos passar anos defendendo uma maneira de viver, sem perceber que nunca nos perguntamos se, queremos viver assim.

Meus gostos são realmente meus? Minhas preferências nasceram da experiência, ou da necessidade de pertencer? Aquilo que desejo me aproxima de mim, ou da pessoa que esperam que eu seja?

Não existe uma resposta simples. Somos atravessados por histórias que começaram antes de nós. Ainda assim, talvez a liberdade não esteja em inventar uma vida sem influência alguma, mas em poder olhar para essas influências e dizer: isto eu mantenho; isto eu transformo; isto eu não preciso acreditar ou continuar.

O que faz sentido, então, pode não ser uma resposta definitiva. Pode ser a possibilidade de participar, com alguma consciência, da história que estamos vivendo.

2. Qual é a busca que me faz sentir importante?

Desde cedo, aprendemos que precisamos chegar a algum lugar. Ter uma profissão, conquistar estabilidade, formar uma família, ser reconhecidos, deixar uma marca. Como se existir fosse apenas o começo, e o direito de nos sentirmos importantes, dependesse de tudo o que conseguíssemos fazer depois.

Mas importante para quem?

Há buscas que nascem de uma vontade sincera. Outras surgem do medo de decepcionar, de ficar para trás, ou de parecer insuficiente. Por fora, elas podem ser muito parecidas. Por dentro, conduzem a vidas bastante diferentes.

É possível realizar um sonho, e descobrir que ele nunca foi propriamente nosso. Também é possível viver algo discreto, que ninguém aplaude, e sentir que ali existe uma verdade, que nenhuma aprovação externa poderia oferecer.

Talvez valha perguntar: se ninguém soubesse dessa conquista, eu ainda a desejaria?

A pergunta não condena o reconhecimento. Gostar de ser valorizado, faz parte da experiência humana. O problema aparece quando precisamos provar o tempo inteiro, que merecemos ocupar o lugar que já ocupamos: o de alguém que existe, sente e tem necessidades.

Se a minha importância depende sempre da próxima conquista, em que momento poderei simplesmente viver, sem transformar cada dia numa avaliação do meu valor?

3. Se eu não trouxe nada e nada levarei, por que acumular?

Chegamos sem bens, sem títulos e sem qualquer garantia de permanência. Ao partir, não levaremos os objetos que guardamos, nem os números que conseguimos reunir. Diante disso, acumular pode parecer uma tarefa estranha: dedicar grande parte da vida a possuir aquilo que, no fim, ficará.

Mas não trazer nada ao nascer, não significa não precisar de nada durante a existência. Precisamos de alimento, abrigo, cuidado, segurança. Ter recursos pode aliviar sofrimentos reais, e ampliar nossas possibilidades de escolha.

A questão talvez não seja possuir, mas perceber quando a posse deixa de nos servir, e passa a nos comandar.

Quanto é suficiente? Em que momento o cuidado com o futuro, se transforma numa incapacidade de viver o presente? Por que às vezes queremos mais, mesmo quando já não sabemos o que esse “mais”, acrescentaria à nossa vida?

Acumulamos também coisas que não cabem em armários: obrigações, ressentimentos, expectativas, compromissos assumidos para agradar. Carregamos versões antigas de nós mesmos, porque nos parece difícil abandoná-las.

Talvez a consciência de que nada levaremos, não precise nos afastar da vida. Ela pode nos ajudar a escolher melhor, o que merece espaço enquanto estamos aqui. Não apenas o que queremos ter, mas o que estamos dispostos a sustentar — e a que custo.

4. Estar feliz ou infeliz é uma condição que me consola?

A felicidade costuma ser apresentada como destino. Trabalhamos, compramos, planejamos e nos modificamos, na esperança de chegar a um estado em que tudo finalmente estará bem.

Só que o mundo não oferece essa garantia. O mesmo lugar em que encontramos afeto, também nos apresenta perdas. A mesma relação que acolhe, pode frustrar. Uma conquista pode trazer alegria e, pouco depois, abrir espaço para uma nova preocupação.

Então, por que buscar a felicidade, num mundo que tantas vezes nos entristece?

Talvez porque a tristeza, não seja tudo o que ele oferece, mesmo quando ocupa quase todo o nosso campo de visão. E talvez porque buscar felicidade, não precise significar exigir uma vida sem sofrimento.

Há, porém, uma pergunta incômoda: estar feliz ou infeliz explica quem somos? Ou são condições que atravessamos e que, às vezes, confundimos com a nossa identidade?

Até a infelicidade pode se tornar familiar. Não porque seja desejada, mas porque aquilo que conhecemos, parece mais compreensível do que uma mudança incerta. Da mesma forma, a obrigação de demonstrar felicidade, pode nos impedir de reconhecer o que dói.

Talvez o consolo não esteja em escolher uma dessas condições, como definição da vida. Talvez esteja em não precisar mentir sobre nenhuma delas. Poder dizer “hoje estou bem”, sem acreditar que tudo está resolvido, e “hoje está difícil”, sem concluir que nada mais poderá mudar.

5. Quando o sentido está naquilo que não faz nenhum sentido.

Existem situações para as quais não encontramos justificativa. Problemas que não criamos, responsabilidades que não escolhemos, consequências de decisões tomadas por outras pessoas. Ainda assim, elas chegam à nossa porta, e exigem alguma resposta.

Por que eu tenho que resolver um problema, que não fui eu quem causou?

Nem sempre essa obrigação é justa. Às vezes, sequer é realmente nossa, embora tenham nos ensinado a assumi-la. Distinguir o que nos cabe, daquilo que estamos carregando por imposição, também faz parte de compreender a própria vida.

Em outras situações, não ter causado o problema, não nos impede de sofrer seus efeitos. Podemos precisar agir, não para admitir uma culpa inexistente, mas para cuidar de nós, diante do que aconteceu. Isso pode incluir pedir ajuda.

E aqui surge outra dúvida: ter alguém ao meu lado facilita o caminho, ou demonstra que sou incapaz de percorrê-lo sozinho?

A ajuda pode ser vivida de formas diferentes. Há quem ajude respeitando nossa autonomia, e há quem faça do auxílio, uma maneira de controlar. Mas precisar de apoio, por si só, não prova incapacidade. Resolver tudo sozinho, não é a única medida possível de força.

Nem todo sofrimento precisa esconder uma lição. Nem toda dificuldade precisa ser agradecida. Às vezes, o que aconteceu continua sem sentido, e o que podemos escolher é apenas a maneira de responder.

Talvez haja sentido no cuidado recebido durante uma situação absurda, sem que isso torne a situação necessária ou boa. O encontro pode ter valor, mesmo quando a dor que o antecedeu, não tem explicação.

6. A construção de algo que, no fundo, precisa ser desconstruído.

Passamos anos construindo uma identidade. Aprendemos a dizer “eu sou assim”, “eu gosto disso”, “isso não é para mim”. Essas definições nos ajudam a organizar a experiência, mas também podem nos prender a conclusões feitas cedo demais.

Será que sou assim, ou aprendi a agir assim? Será que não consigo, ou ouvi tantas vezes que não conseguiria, que deixei de tentar? Será que quero isso, ou nunca considerei a possibilidade de querer outra coisa?

Desconstruir não precisa significar negar toda a própria história. Pode significar examiná-la, sem tratar cada parte como uma sentença.

Algumas crenças nos protegeram em determinado momento, e depois passaram a nos limitar. Certos objetivos fizeram sentido numa fase, e perderam importância em outra. Mudar de direção não torna necessariamente falso o caminho anterior; pode apenas mostrar que, já não somos exatamente os mesmos.

Também não é preciso substituir cada certeza abandonada, por uma certeza nova. Existe um tempo em que ainda não sabemos, o que queremos manter. Esse intervalo pode ser desconfortável, sobretudo num mundo que exige respostas rápidas.

É nesse espaço que a pergunta sobre algo maior pode surgir: todas essas tribulações só fariam sentido, se houvesse alguma continuidade depois da vida? Para algumas pessoas, a fé oferece uma resposta e uma direção. Para outras, a possibilidade de uma existência finita, torna ainda mais importante o modo como vivemos agora. Há também quem permaneça entre a esperança e a dúvida.

Não precisamos fingir uma certeza que não temos. A pergunta pode continuar aberta, enquanto escolhemos como tratar as pessoas, o que fazer com nosso tempo, e quais histórias desejamos contar, ou deixar de repetir.

Conclusão: afinal, que diferença faz tudo isso?

No fim, a vida é um emaranhado de situações que tentamos resolver, e de outras que, sem perceber, ajudamos a complicar. Herdamos problemas, aprendemos maneiras de enfrentá-los, buscamos alívio e criamos expectativas. Aquilo que esperamos alcançar, passa a representar o que daria sentido à existência — mas, quando chega, nem sempre corresponde ao que imaginávamos.

Por isso, perguntar o que realmente faz sentido, não precisa ser uma tentativa de encontrar uma explicação, capaz de organizar tudo. Pode ser uma forma de perceber onde estamos vivendo por escolha, e onde apenas seguimos o que nos foi entregue.

Não escolhemos o começo da nossa história. Não controlamos todas as circunstâncias, nem sabemos com certeza o que existe depois dela. Ainda assim, podemos rever algumas buscas, recusar certas cobranças, aceitar ajuda, e reconhecer que nem tudo o que aprendemos, precisa continuar sendo seguido.

Talvez a diferença esteja aí: não em fazer a vida inteira caber numa resposta, mas em deixar de tratar como obrigatório, tudo aquilo que nos ensinaram a desejar.

E, se a pergunta voltar — “que diferença faz tudo isso?” —, talvez não seja necessário encerrá-la depressa. Podemos escutá-la como um convite à honestidade:

O que, entre tudo o que você vive, ainda merece ser escolhido por você?

Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.