Crescer também é aprender a atravessar.
A vida nem sempre pergunta se estamos preparados. Às vezes, ela muda os planos, fecha uma porta importante, e nos coloca diante de situações que preferiríamos evitar. Nessas horas, é natural sentir medo, cansaço e até vontade de deixar tudo para depois. Mas existe uma pergunta que merece nossa atenção: o que fazemos com aquilo que nos acontece?
Não podemos controlar todas as dificuldades, muito menos escolher o momento em que elas chegam. Podemos, porém, construir maneiras de enfrentá-las. Isso não significa estar forte o tempo inteiro, ou transformar qualquer sofrimento em uma lição imediata. Significa reconhecer nossos limites, sem desistir das nossas possibilidades.
Crescer passa por esse encontro entre o que desejamos, o que tememos, e o que estamos dispostos a fazer. E, embora esse caminho seja pessoal, ninguém precisa percorrê-lo completamente sozinho.
1. O crescimento individual e coletivo do ser humano.
O ser humano tem uma necessidade natural de desenvolver suas capacidades, compreender melhor a realidade, e encontrar sentido no que faz. Esse crescimento não acontece no mesmo ritmo para todos, nem segue uma linha reta. Há momentos de avanço, períodos de pausa, e situações em que precisamos rever o caminho.
Crescer individualmente, é aprender a assumir responsabilidades, reconhecer erros, e cuidar das próprias escolhas. Mas esse desenvolvimento ganha outra dimensão, quando também contribui para a vida, de quem está ao nosso redor. Afinal, de que adianta acumular conhecimento, se ele nunca se transforma em uma atitude, que melhora nossa convivência?
Cada pessoa possui habilidades que podem servir a esse propósito. Algumas parecem surgir com facilidade, como a disposição para ouvir, criar ou comunicar. Outras são adquiridas com estudo, prática e experiência. Todos esses dons podem se tornar, ferramentas de crescimento individual e coletivo.
Quem sabe ensinar pode compartilhar conhecimento. Quem tem facilidade para organizar, pode colaborar em momentos de confusão. Quem aprendeu a enfrentar uma dificuldade, pode oferecer uma perspectiva a quem está começando. Ser fonte de crescimento, não exige ter todas as respostas; exige disposição para usar o que sabemos, de maneira responsável e generosa.
2. A procrastinação como forma de fuga.
Quase todo mundo conhece aquela conversa interior: “Amanhã eu resolvo”, “Quando as coisas melhorarem, eu começo”, “Agora não é o momento”. Às vezes, adiar é uma escolha sensata. Em outras, é apenas uma maneira de fugir do desconforto.
A procrastinação pode esconder medo de fracassar, insegurança, perfeccionismo, ou dificuldade para lidar com uma tarefa, que parece grande demais. Por isso, nem sempre se trata de preguiça. Muitas vezes, sabemos o que precisa ser feito, mas não queremos enfrentar o sentimento que vem junto.
O problema é que aquilo que adiamos, nem sempre fica parado esperando por nós. Uma conversa evitada pode aumentar um conflito. Uma decisão ignorada pode reduzir nossas opções. E uma oportunidade de aprender pode passar, enquanto esperamos uma disposição que nunca chega.
Romper esse ciclo não depende necessariamente, de uma grande mudança. Pode começar com um gesto pequeno: fazer uma ligação, organizar uma pendência, ou dedicar alguns minutos a uma tarefa. O primeiro passo não resolve tudo, mas interrompe a fuga, e nos devolve alguma capacidade de agir.
3. A falta de incentivo nos momentos de dificuldade.
Há situações em que o problema já é pesado, mas se torna ainda mais difícil, pela ausência de incentivo. Quando precisamos de uma palavra de confiança, e encontramos apenas críticas, indiferença ou previsões negativas, a caminhada parece mais solitária.
Também podemos absorver o desânimo de quem convive conosco. As preocupações de familiares, amigos e colegas atravessam nosso cotidiano. Quando todos ao redor parecem cansados ou sem esperança, é fácil começar a acreditar que tentar não vale a pena.
Devemos nos importar com essas pessoas, sim. O sofrimento alheio não merece desprezo. No entanto, acolher alguém, não significa assumir o desespero dessa pessoa, como destino para a nossa vida. Podemos ouvir, apoiar e colaborar, sem abandonar nossos projetos, ou perder de vista nossas possibilidades.
Incentivar também não é prometer que tudo dará certo. É reconhecer a dificuldade e, ainda assim, lembrar que existem caminhos a explorar. Às vezes, uma frase simples — “Eu sei que está difícil; vamos pensar no próximo passo?” — oferece mais apoio, do que um discurso cheio de certezas.
4. A importância do outro em nossa vida — e a nossa na vida dele.
Ninguém cresce apenas pela própria força. Somos influenciados pelas relações que construímos, pelas oportunidades que recebemos, e pelas pessoas que permanecem ao nosso lado nos momentos difíceis. Por isso, buscar boas parcerias, é uma forma de cuidar do futuro.
Uma boa parceria não é aquela em que nunca há discordância. É aquela em que existe respeito suficiente para conversar, corrigir rumos, e celebrar o crescimento do outro sem enxergá-lo como ameaça. Pessoas assim não apenas confortam: também nos ajudam a perceber o que estamos evitando.
Avaliar a importância de alguém em nossa vida, não significa reduzir relações a uma conta de vantagens. Significa observar a qualidade dos vínculos. Há espaço para escuta? Existe reciprocidade ao longo do tempo? Podemos dizer “não” sem sermos humilhados? O cuidado circula, ou sempre parte da mesma pessoa?
Também precisamos olhar para nossa participação nessas relações. Estamos presentes apenas quando precisamos de algo? Sabemos incentivar? Respeitamos os limites alheios? Desejar boas companhias é legítimo, mas também cabe a nós, aprender a ser uma delas.
5. Encarando os fantasmas da vida.
Nem todas as dificuldades estão do lado de fora. Algumas vivem em lembranças, culpas, inseguranças e medos, que carregamos por muito tempo. São os nossos fantasmas: o receio de rejeição, a vergonha de um erro, a sensação de incapacidade, ou o medo de recomeçar.
Enfrentá-los exige honestidade. Enquanto fingimos que não existem, eles continuam influenciando nossas decisões. Podemos recusar uma oportunidade, não porque ela seja ruim, mas porque temos medo de falhar. Podemos permanecer em uma situação prejudicial, porque o desconhecido parece ainda mais ameaçador.
Existem caminhos tenebrosos que não escolhemos, mas precisamos atravessar. Uma perda, uma ruptura ou uma mudança inesperada, pode nos obrigar a rever certezas. Isso não torna o sofrimento desejável, ou necessário para todo aprendizado. Apenas reconhece que, quando ele acontece, podemos buscar recursos para atravessá-lo e, quando possível, compreender algo a partir dele.
Coragem, nesse contexto, não é ausência de medo. É dar um passo possível mesmo com receio, respeitando o próprio ritmo, e procurando apoio quando necessário. Certas travessias pedem tempo, companhia e até acompanhamento profissional. Reconhecer isso também é crescer.
6. A importância do incentivo e os riscos do assistencialismo humano.
Apoiar e ajudar são atitudes valiosas, mas é importante observar como elas acontecem. O apoio, entendido como incentivo ao que o outro está tentando realizar, fortalece a iniciativa. Ele comunica confiança, e oferece condições, para que a pessoa participe da própria caminhada.
Já fazer algo pelo outro, pode ser necessário em muitas situações. Quem está doente, sobrecarregado ou diante de uma limitação real, pode precisar de ajuda concreta, e não apenas de palavras motivadoras. Não conseguir fazer algo, é diferente de não tentar, ou não querer fazer — e essas situações não devem receber a mesma resposta.
O risco aparece, quando a ajuda se transforma em substituição permanente: decidimos, resolvemos e assumimos tudo, mesmo quando existe espaço para a participação do outro. Esse tipo de assistencialismo pode enfraquecer a autonomia, alimentar dependências, e sobrecarregar quem ajuda.
Antes de agir, vale perguntar: “O que essa pessoa realmente precisa?” e “O que ela pode fazer com o apoio adequado?”. Em alguns momentos, será preciso fazer por ela. Em outros, fazer junto. E haverá ocasiões em que o melhor será incentivar e permitir que ela tente sozinha. O cuidado responsável não abandona, mas também não toma para si, toda a vida do outro.
7. Aproveitar as experiências sem esperar uma vida perfeita.
A vida oferece aprendizado em acontecimentos grandes e pequenos. Aprendemos em uma conversa difícil, em um projeto que não funcionou, em um limite respeitado, e em uma escolha que trouxe bons resultados. Para perceber isso, precisamos estar presentes, em vez de viver apenas esperando, que a fase complicada termine.
Aproveitar os momentos não significa estar feliz o tempo inteiro, nem encontrar uma vantagem em toda dor. Significa não deixar que a pressa, o medo ou a distração, nos impeçam de reconhecer o que cada experiência pode revelar.
Com o tempo, esses aprendizados podem trazer mais segurança, e algumas certezas sobre nossos valores, nossas capacidades e nossos limites. Não a certeza de que nada dará errado, mas a confiança de que podemos buscar recursos, rever decisões e pedir ajuda. Essa segurança é mais realista do que a promessa, de uma vida sem dificuldades.
Conclusão.
Enfrentar as dificuldades que a vida nos traz, exige atenção tanto às situações que enxergamos, quanto àquelas que preferimos não enxergar. Reconhecemos facilmente alguns obstáculos externos, mas nem sempre admitimos nossa fuga, nossa acomodação ou a expectativa, de que alguém resolva o que cabe a nós enfrentar.
Muitas vezes, desejamos viver de uma forma, que não nos obrigue a fazer o que é preciso, exigindo de nós o menor esforço possível. Esse desejo de conforto é compreensível: ninguém precisa procurar sofrimento, ou transformar a vida, em uma prova permanente de resistência. O problema começa quando a busca por facilidade, nos faz evitar responsabilidades, adiar mudanças, e abrir mão do próprio crescimento.
Uma vida melhor não é necessariamente, aquela em que fazemos mais esforço, mas aquela em que aprendemos, onde vale a pena empregá-lo. Isso inclui desenvolver nossos dons, construir boas parcerias, apoiar sem anular a autonomia, e aceitar ajuda sem abandonar nossa participação.
No fim, amadurecer é deixar de esperar que tudo se torne fácil, para começar a agir. É acolher o que sentimos, reconhecer o que a realidade exige, e dar o próximo passo possível. Não precisamos vencer todas as dificuldades de uma vez. Precisamos apenas evitar que o medo de atravessá-las, decida sozinho a maneira como vamos viver.
Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.