A nossa evolução não precisa custar o caminho de ninguém.
Hoje quero conversar sobre um assunto delicado: a ideia de que, para crescermos, precisamos fazer com que alguém pare, recue ou perca a força. Às vezes, esse desejo aparece de forma evidente, em nós, ou no outro como: inveja, vingança ou na necessidade de não ver o outro bem. Em outras situações, ele se esconde em pensamentos que parecem inofensivos: “Se aquela pessoa mudasse, minha vida seria melhor” ou “Se ela deixasse de conseguir o que quer, eu finalmente teria espaço”.
Mas será que o nosso crescimento depende mesmo da diminuição de alguém?
É natural querer proteção diante daquilo que nos machuca. O cuidado começa quando percebemos a diferença entre proteger a própria caminhada, e desejar que a caminhada alheia seja interrompida. Podemos estabelecer limites, nos afastar e enfrentar injustiças, sem transformar a queda do outro, em condição para a nossa paz.
Crescer sem diminuir ninguém é, antes de tudo, mudar a direção do olhar. É deixar de perguntar apenas como o outro deveria agir, e começar a perguntar: “O que eu preciso desenvolver em mim, para seguir com dignidade, mesmo quando a realidade, não corresponde às minhas expectativas?”.
1. O querer que tudo seja como acreditamos que deva ser.
Todos nós carregamos uma ideia de como a vida deveria funcionar. Queremos ser compreendidos, respeitados e reconhecidos. Esperamos que as pessoas percebam nossas intenções e, de preferência, colaborem com nossos planos.
O problema começa quando transformamos essas expectativas, em obrigações para os outros.
Ninguém existe apenas para atender aos nossos interesses. Cada pessoa tem sua história, seus desejos, seus limites e suas contradições. Isso não torna todas as atitudes aceitáveis, mas nos lembra de que, a nossa vontade não é a medida de todas as coisas.
Até nos pedidos que fazemos ao universo, vale observar a intenção. Quando pedimos que alguém seja impedido de avançar, de maldizer-nos, ou de desejar nossa completa ruina, apenas porque seus interesses contrariam os nossos, talvez estejamos dizendo: “Mude a vida dessa pessoa, para que a minha fique mais confortável”.
Uma alternativa mais consciente seria pedir:
“Universo, dê-me discernimento para reconhecer o que posso transformar, firmeza para me proteger, e sabedoria para não confundir meus desejos, com deveres dos outros.”
2. Estar vivendo entre acertos e erros, nossos ou de outros.
A convivência humana acontece entre tentativas, acertos, enganos e recomeços. Nós erramos. Os outros também. Às vezes, machucamos sem perceber; em outras, somos atingidos por atitudes, que não conseguimos compreender.
Reconhecer isso não significa desculpar a falta de caráter, a inveja ou a vingança. Significa evitar a ilusão de que estamos sempre do lado certo, e de que todo conflito nasce exclusivamente no outro.
Antes de desejar que alguém mude, podemos examinar nossa própria participação: estamos agindo com honestidade? Sabemos ouvir? Conseguimos reconhecer um excesso? Estamos buscando justiça ou apenas querendo vencer?
Não temos como conduzir a consciência alheia. Podemos dialogar, oferecer apoio e incentivar mudanças, mas o crescimento verdadeiro, exige a participação e o esforço de quem cresce.
Nossa responsabilidade é aprender com os próprios erros, reparar o que estiver ao nosso alcance, e não repetir, por ressentimento, as mesmas atitudes que condenamos.
3. Quando nossa coragem e resiliência falam mais alto.
Coragem não é ausência de medo. É a disposição de agir mesmo quando o medo está presente. Resiliência, por sua vez, não é suportar tudo em silêncio: é encontrar maneiras de atravessar dificuldades, sem abandonar a própria dignidade.
Por isso, talvez o pedido mais importante não seja: “Universo, retire do meu caminho toda pessoa ou coisa, que me contraria”. Talvez seja:
“Universo, dê-me força para lidar com aquilo que não controlo, clareza para reconhecer meus limites, e coragem para continuar, sem me tornar semelhante àquilo que me feriu.”
Tentar controlar completamente o outro, pode ser como entrar na frente de um caminhão em alta velocidade, numa ladeira, e acreditar que conseguiremos pará-lo com os braços. Nesse caso, o discernimento não está em provar força, mas em sair da trajetória do impacto, e escolher um caminho ou uma passagem segura.
Às vezes, vencer uma dificuldade significa enfrentá-la. Outras vezes, significa mudar de direção, buscar ajuda ou encerrar uma relação. Seguir em frente não exige permanecer disponível para ser machucado.
4. Estar disposto a pagar o preço do que estamos adquirindo.
Todo crescimento envolve alguma forma de investimento. Conhecimento exige estudo. Confiança exige coerência. Saúde financeira pede organização. Relações saudáveis precisam de diálogo, presença e responsabilidade.
Queremos os resultados, mas nem sempre acolhemos o processo necessário para construí-los.
É nesse ponto que podemos cair na comparação: em vez de cuidar do que precisamos fazer, começamos a desejar que o outro, tenha menos oportunidades, menos reconhecimento ou menos sucesso.
Entretanto, diminuir a conquista de alguém, não aumenta a nossa capacidade. O tempo gasto torcendo contra uma pessoa, poderia ser dedicado ao desenvolvimento de uma habilidade, à revisão de um plano, ou à construção de novas possibilidades.
Pagar o preço do próprio crescimento, é assumir compromissos reais com a vida que desejamos. É trocar a vigilância sobre o caminho alheio, pela responsabilidade sobre os próprios passos.
5. Quando o preço fica alto demais.
Também é preciso reconhecer que nem todo preço merece ser pago.
Uma conquista que exige a perda da saúde, da dignidade, dos valores ou da paz, precisa ser repensado(a). Persistência é importante, mas insistir sem avaliar as consequências, pode transformar um sonho em aprisionamento.
Quando o preço fica alto demais, vale perguntar: “Ainda quero isso pelas razões certas? Estou construindo algo que faz sentido, ou tentando provar meu valor para alguém?”.
Rever uma meta não é necessariamente desistir. Pode ser um sinal de maturidade. Descansar não apaga o esforço realizado. Pedir ajuda não diminui a coragem de ninguém.
Crescer sem diminuir o outro, também significa não diminuir a si mesmo. Não precisamos destruir ninguém para avançar, mas tampouco precisamos nos destruir, para demonstrar que somos capazes.
6. Ter a consciência de que tudo será como tem que ser.
Essa consciência pode trazer serenidade, desde que não seja confundida com passividade. Aceitar a realidade não significa acreditar que, toda injustiça deve permanecer, ou que nossas escolhas não fazem diferença.
Significa reconhecer que a vida reúne fatores que não controlamos: decisões alheias, circunstâncias inesperadas, oportunidades e perdas. Fazemos nossa parte, mas não comandamos todos os resultados.
Quem caminha a nosso favor, pode oferecer apoio importante. Quem nos contraria pode revelar limites que precisamos estabelecer, ou capacidades que ainda não desenvolvemos. Isso não torna a hostilidade necessária, nem transforma toda dor em benefício, mas permite que busquemos aprendizado, sem justificar o que nos fez mal.
O foco, então, volta à nossa evolução moral, espiritual, relacional e financeira. Em vez de pedir que o universo freie alguém por nossa causa, podemos pedir discernimento para continuar, independentemente das escolhas daquela pessoa.
Conclusão — Pedir força para caminhar, não a queda de alguém.
Crescer sem diminuir o outro, é compreender que a evolução, não precisa ser uma disputa em que alguém perde, para que nós possamos existir com plenitude. Nosso avanço ganha consistência quando nasce do trabalho, da consciência, da coragem e da responsabilidade por nossas escolhas.
Pedir ao universo um refresco, esperando que ele substitua toda iniciativa, é como desejar um líquido bem gelado, sem se dispor a buscar o copo, conseguir a água e preparar aquilo que se quer beber. O desejo pode indicar uma necessidade, mas não substitui a ação. Ao mesmo tempo, aceitar um copo oferecido por alguém, não diminui nosso mérito: o apoio também faz parte da caminhada.
Talvez, então, nosso pedido possa ser mais simples, e mais honesto:
“Universo, não preciso que ninguém seja diminuído para que eu cresça. Não mude ou dê sabedoria àqueles que me querem mal, só para que passem a me agradar, ou facilitar o meu crescimento. Dê-me sabedoria para agir onde posso, serenidade diante do que não controlo, e coragem para atravessar as dificuldades, sem perder minha humanidade. Que eu saiba receber ajuda, estabelecer limites, e recomeçar sempre que necessário.”
Afinal, crescer de verdade, não é ficar acima dos outros. É tornar-se mais consciente do próprio caminho, ser maior do que era antes, e tudo isso, sem precisar apagar os caminhos dos outros ao nosso redor.
Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.