Existe uma coisa curiosa no ser humano: somos muito bons em construir personagens.
Aprendemos desde cedo, que existem comportamentos, que nos fazem parecer melhores diante dos outros. Aprendemos a escolher palavras, controlar gestos, construir discursos e apresentar uma versão de nós mesmos, que seja socialmente aceitável. Sabemos o que dizer quando alguém pergunta sobre nossos princípios, nossa moral, nossa família, nossos relacionamentos, e até sobre a maneira como devemos tratar as pessoas.
Mas existe um lugar onde toda essa construção, começa a perder força. Esse lugar se chama bastidor.
É quando as portas se fecham. Quando não existe plateia. Quando ninguém está olhando. Quando não precisamos mais sustentar a imagem que construímos diante dos outros. É ali que muitas vezes, aparece o ser humano de verdade.
Não necessariamente porque aquilo que fazemos escondido, seja sempre a nossa verdadeira essência, mas porque é nos momentos em que não precisamos representar, que nossas contradições ficam mais evidentes.
Há pessoas que discursam sobre respeito, mas tratam mal quem está próximo. Falam sobre honestidade, mas encontram justificativas para pequenas desonestidades. Pregam fidelidade, mas vivem de concessões, quando o assunto envolve seus próprios desejos. Falam sobre humildade, mas precisam constantemente demonstrar superioridade.
E existe algo ainda mais interessante: algumas dessas pessoas não percebem a própria contradição. De tanto contar a mesma história sobre quem são, acabam acreditando nela.
1. Um caráter, uma personalidade.
Caráter não é aquilo que dizemos possuir. Caráter é aquilo que aparece, quando precisamos escolher entre aquilo que é conveniente, e aquilo que consideramos correto. Qualquer pessoa pode dizer que é honesta. Qualquer pessoa pode afirmar que respeita os outros. Qualquer pessoa pode falar sobre lealdade, humildade, empatia, responsabilidade e dignidade.
O problema começa quando precisamos transformar essas palavras em comportamento. Porque personalidade pode ser construída socialmente. Podemos desenvolver maneiras de falar, maneiras de vestir, maneiras de cumprimentar, maneiras de nos apresentar e até maneiras de parecer gentis.
Mas caráter aparece nas escolhas. Ele aparece principalmente quando não existe nenhuma vantagem, em fazer o que é certo. É muito fácil ser educado com quem admiramos. Mais difícil é manter o respeito, por alguém de quem discordamos. É fácil defender a honestidade, quando não temos nada a perder. Mais difícil é permanecer honestos, quando uma mentira poderia nos beneficiar. É fácil falar sobre perdão, quando fomos nós que fomos feridos. Mais difícil é reconhecer os próprios erros, quando somos nós que precisamos pedir o perdão.
Por isso, talvez uma das perguntas mais importantes, que uma pessoa possa fazer a si mesma seja: Quem eu sou, quando não preciso provar para ninguém, quem sou eu? Porque existe uma diferença enorme entre, ter uma personalidade agradável, e possuir coerência de caráter.
2. Uma justificativa para ser importante.
Existe também uma necessidade humana de se sentir importante. Algumas pessoas encontram importância naquilo que constroem. Outras, naquilo que aprendem. Outras, naquilo que oferecem aos demais. Mas existem aquelas que precisam construir uma imagem de importância. Precisam parecer sábias. Precisam parecer corretas. Precisam parecer moralmente superiores. Precisam demonstrar que sabem mais, que enxergam mais, que possuem mais princípios, e que estão quase sempre, do lado certo das coisas. E, quando isso se transforma em necessidade, o discurso passa a ter uma função diferente. Ele deixa de ser apenas uma expressão de valores, e passa a ser uma ferramenta de autopromoção moral. A pessoa fala sobre integridade, porque quer ser reconhecida como íntegra. Fala sobre respeito, porque quer ser vista como respeitosa. Fala sobre família, porque deseja transmitir uma imagem de pessoa familiar. Fala sobre fidelidade, porque quer ser reconhecida como fiel.
Mas existe uma pergunta que o discurso, não consegue responder sozinho: Como essa pessoa realmente vive, quando ninguém está observando? É nesse momento que, a importância construída pela narrativa, encontra a realidade produzida pelos comportamentos. E nem sempre as duas coisas combinam.
3. Quando não pratico aquilo que prego.
Talvez uma das maiores contradições humanas esteja justamente aqui. Pregamos aquilo que não conseguimos praticar. E isso, por si só, não significa necessariamente que alguém seja uma fraude. Todos nós temos contradições. Todos nós falhamos. Todos nós, em algum momento, aconselhamos alguém sobre algo, que também estamos tentando aprender. A diferença está na maneira como lidamos com isso.
Uma pessoa moralmente consciente consegue dizer: "Eu acredito nisso, mas ainda estou aprendendo a viver dessa maneira." Isso é humildade. Outra pessoa diz: "Eu sou exatamente isso." E passa a construir uma imagem de perfeição enquanto suas atitudes caminham em direção oposta. Isso é muito diferente.
O problema não está em não conseguir cumprir perfeitamente, aquilo que se acredita. O problema está em fingir que, já se vive aquilo que ainda não se pratica. Existe uma distância enorme entre alguém que luta contra as próprias imperfeições, e alguém que utiliza um discurso moral, para esconder essas imperfeições. O primeiro reconhece suas falhas. O segundo cria explicações para não precisar reconhecê-las.
4. Quando as narrativas são exageradas, e o caráter diminuto
Algumas pessoas possuem narrativas enormes sobre si mesmas. Contam histórias sobre quem são, sobre aquilo que fizeram, sobre aquilo que defendem e sobre os princípios que carregam. Quanto mais falam, maior parece ser a imagem. Mas basta observar um pouco mais de perto, para perceber que existe uma diferença entre, o tamanho da narrativa e o tamanho da prática. É como uma fachada muito bem construída, escondendo uma estrutura frágil.
A pessoa fala muito sobre caráter, mas não suporta ser contrariada. Fala sobre humildade, mas precisa estar sempre por cima. Fala sobre respeito, mas humilha aqueles que dependem dela. Fala sobre amor, mas é incapaz de oferecer consideração dentro da própria casa. Fala sobre justiça, mas muda seus princípios, quando seus interesses estão envolvidos. Fala sobre honestidade, mas possui inúmeras justificativas, para aquilo que faz escondido. E talvez seja justamente aí, que esteja uma das formas mais silenciosas de incoerência: quanto maior a necessidade de anunciar aquilo que somos, mais importante se torna, observar aquilo que fazemos. Não porque falar seja errado. Mas porque discurso sem prática é apenas narrativa. E narrativa não substitui caráter.
5. O real crescimento moral.
O verdadeiro crescimento moral talvez não esteja, em aprender a falar melhor sobre valores. Talvez esteja em precisar falar menos sobre eles, porque começamos a incorporá-los na maneira como vivemos. Uma pessoa realmente amadurece quando, começa a perceber que não precisa parecer boa o tempo inteiro. Ela precisa ser coerente. E ser coerente não significa ser perfeito. Significa reconhecer quando erramos. Significa pedir desculpas. Significa corrigir comportamentos. Significa não exigir dos outros, aquilo que não estamos dispostos a oferecer. Significa tratar bem, as pessoas que não podem nos proporcionar nenhuma vantagem. Significa manter determinados princípios, mesmo quando ninguém poderá nos aplaudir por isso.
O crescimento moral acontece, quando deixamos de perguntar: "Como as pessoas estão me enxergando?" E começamos a perguntar: "Que tipo de pessoa estou me tornando?" Essa segunda pergunta é muito mais difícil. Porque ela não pode ser respondida pelas palavras. Ela precisa ser respondida pela vida. E talvez seja justamente por isso, que o verdadeiro crescimento seja tão silencioso. Ele não precisa de plateia.
6. O que não é ilegal, mas é imoral.
Existe ainda uma diferença importante entre, aquilo que é ilegal, e aquilo que é moralmente correto. Nem tudo que a lei proíbe, é o único limite que deveria orientar nossas atitudes. E nem tudo aquilo que a lei permite, deveria ser utilizado como justificativa, para fazer qualquer coisa.
Existem comportamentos que não levam ninguém para a prisão, mas que ferem profundamente alguém. Uma pessoa pode não estar cometendo um crime, ao desprezar emocionalmente alguém. Pode não estar cometendo um crime, ao manipular sentimentos. Pode não estar cometendo um crime, ao humilhar alguém dentro de casa. Pode não estar cometendo um crime, ao abandonar emocionalmente, uma pessoa que depende dela. Pode não estar cometendo um crime, ao agir de maneira desleal em determinadas relações. Mas a ausência de ilegalidade, não transforma automaticamente uma atitude, em algo moralmente correto. Existe uma consciência que vai além dos códigos jurídicos. Existe responsabilidade afetiva. Existe respeito. Existe consideração. Existe dignidade. Existe aquilo que não fazemos simplesmente, porque sabemos que não deveríamos fazer, mesmo quando temos certeza, de que ninguém poderá ver, ou nos punir.
Talvez seja justamente nesse território que o caráter seja mais profundamente revelado. Porque quando existe uma lei, existe uma consequência externa. Quando não existe lei, resta a consciência. E é justamente aí que descobrimos, o quanto nossos valores realmente significam para nós.
7 - Os bastidores revelam as contradições.
Talvez devêssemos prestar menos atenção, ao que uma pessoa diz sobre si mesma, e um pouco mais atenção, ao que sua rotina revela. Não porque as palavras não tenham valor. Elas têm. Mas as palavras apresentam uma intenção, enquanto os comportamentos apresentam uma realidade. Uma pessoa pode dizer que ama a família. Observe como trata a família. Pode dizer que respeita as pessoas. Observe como trata aqueles, que não podem oferecer nada em troca. Pode falar sobre humildade. Observe como reage quando é contrariada. Pode falar sobre honestidade. Observe o que faz, quando ninguém está olhando. Pode falar sobre fidelidade. Observe como administra seus desejos, quando surge uma oportunidade. Pode falar sobre caráter. Observe o comportamento, quando fazer o certo deixa de ser conveniente.
Os bastidores não precisam necessariamente, ser expostos publicamente. Não precisamos transformar a vida alheia em investigação. A questão é outra. Precisamos aprender a compreender que, nenhuma narrativa consegue esconder indefinidamente uma prática. Em algum momento, a vida começa a contar a história, que a boca tentou esconder.
Quando a pessoa acredita na própria personagem.
Existe algo ainda mais complexo. Às vezes, a pessoa não está simplesmente enganando os outros. Às vezes ela está enganando a si mesma. De tanto repetir que é boa, começa a acreditar que é boa. De tanto falar que é justa, passa a interpretar suas próprias injustiças como exceções. De tanto defender a honestidade, encontra justificativas para suas próprias desonestidades. De tanto acusar os outros de falta de caráter, deixa de perceber suas próprias contradições. E isso pode ser extremamente perigoso, para qualquer processo de amadurecimento. Porque quem reconhece o próprio erro, pode corrigi-lo. Mas quem acredita sinceramente que não erra, não encontra motivo para mudar. É possível construir uma espécie de identidade moral imaginária. A pessoa passa a se enxergar, através daquilo que gostaria de ser, e não através daquilo que efetivamente pratica. E quando alguém aponta a contradição, ela não examina o comportamento. Ataca quem apontou. Não pergunta: "Será que existe alguma verdade nisso?" Pergunta: "Quem essa pessoa pensa que é, para falar de mim?" E assim o espelho deixa de refletir. A diferença entre parecer e ser.
No final, talvez a grande questão dos bastidores humanos seja muito simples: Quem somos quando ninguém precisa acreditar em nós? Porque enquanto estamos tentando convencer alguém, ainda estamos construindo uma imagem. Quando deixamos de precisar convencer, começamos a simplesmente viver. A pessoa verdadeiramente consciente de suas limitações, não precisa se apresentar como perfeita. Ela pode dizer: "Eu errei." "Eu ainda estou aprendendo." "Isso que eu fiz não corresponde ao que acredito." "Preciso melhorar." Essas frases podem parecer pequenas, mas carregam uma honestidade enorme.
8 - Porque caráter não é a ausência de erros.
Caráter também está na maneira como lidamos com eles. O problema começa quando alguém passa a acreditar que, a própria narrativa é mais verdadeira do que os próprios atos. Quando o discurso se torna tão convincente que, substitui a realidade. Quando a pessoa olha para sua própria história, e enxerga apenas aquilo que gostaria de enxergar. Quando passa a acreditar que, é íntegra simplesmente porque fala sobre integridade. E talvez uma das maiores formas de cegueira humana, seja exatamente essa: acreditar na pessoa que imaginamos ser, e ignorar a pessoa que nossas atitudes estão construindo.
Os bastidores, cedo ou tarde, aparecem. Nem sempre diante de uma multidão. Às vezes aparecem apenas diante do espelho. E talvez seja esse o momento mais importante de todos. Não para descobrir que somos pessoas ruins. Mas para perceber que somos seres humanos em construção. Porque reconhecer uma contradição, não diminui necessariamente uma pessoa. O que realmente pode diminuí-la, é perceber a contradição e, ainda assim, escolher continuar representando. No fim das contas, não somos apenas aquilo que dizemos acreditar. Somos também aquilo que repetidamente fazemos.
Conclusão: Somos a maneira como tratamos aqueles que, não podem nos devolver nada. Somos nossas escolhas quando ninguém está olhando. Somos aquilo que fazemos, quando não existe aplauso. Somos aquilo que permanece, quando a plateia vai embora. E talvez o verdadeiro caráter, seja exatamente isso: a distância — ou a proximidade — entre aquilo que dizemos ser, e aquilo que nossa vida demonstra que somos.
Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.