Um convite a olhar a vida como ela é.

A gente costuma imaginar que o mundo seria melhor, se tudo fosse do nosso jeito. Se as pessoas agissem como esperamos, se o tempo respeitasse nossos planos e se a vida entregasse exatamente aquilo que desejamos, talvez tudo ficaria mais fácil. Mas existe uma distância entre, as coisas como gostaríamos que fossem, e as coisas como elas realmente são. É nesse espaço que surgem muitas das nossas frustrações — e também algumas das nossas maiores aprendizagens.

O título “As Coisas Como Devem Ser” pode até sugerir um conjunto de regras, para colocar o mundo em ordem. Aqui, porém, o convite é outro: antes de decidir como tudo deveria ser, que tal observar como tudo é? Reconhecer a simplicidade, a natureza, a beleza e até os aspectos que nos desagradam em cada coisa, pode ser o começo de uma relação mais respeitosa com a vida.

1. A importância das coisas como elas são.

Uma pedra não precisa deixar de ser dura, para merecer um lugar no caminho. A água não precisa adquirir firmeza, para demonstrar sua força. Cada coisa existe com características próprias, e conhecidas, é mais útil do que exige, e que não se comportam de outra maneira diferente, de sua forma de ser.

É curioso pensar nisso: uma simples gota, aparentemente frágil diante da pedra, pode, pela repetição e pela ação do tempo, provocar desgaste e até abrir uma passagem. A água não precisa se tornar pedra para transformá-la. É agindo de acordo com suas propriedades, que ela produz seu efeito.

Com a vida, muitas vezes, acontece algo parecido. Gastamos energia tentando negar as características, que precisaríamos primeiro compreender. Respeitar a essência das coisas, não significa acreditar que nada pode mudar. Significa perceber que uma transformação possível, começa pelo conhecimento daquilo que existe, e não apenas pela vontade de que seja diferente.

2. Não podemos generalizar a importância de cada coisa.

Entre uma pedra de ouro e um prego, qual tem mais valor? Se estivermos falando de preço, provavelmente o ouro. Mas se precisarmos prender uma tábua, o prego poderá ser muito mais útil naquele momento.

Isso mostra como é limitado medir todas as coisas, pela mesma régua. O preço não determina apenas a importância, assim como a aparência não revela todas as possibilidades de uso. O que parece pequeno em uma situação, pode ser decisivo em outra.

Também há aquilo que dura muitos anos, e aquilo que utilizamos uma única vez. Há objetos raros, e materiais encontrados em abundância. Essas diferenças existem, mas não seria justo concluir que o barato, o passageiro, o abundante e comum, seja irrelevante.

Uma coisa não deixa de existir porque não sabemos quanto ela vale. Às vezes, o que falta não é valor: é um olhar capaz de considerar sua importância.

3. Criando e usando as coisas de acordo com nossa necessidade.

Nós transformamos o mundo para viver. Criamos ferramentas, construímos casas, produzimos roupas e damos novos usos a materiais antigos. Há beleza nessa capacidade de imaginar o que ainda não existe, e trabalhar para torná-lo possível.

Entretanto, criar exige atenção à natureza daquilo que usamos. A madeira tem limites, o metal tem propriedades, a água segue condições próprias de movimento. Não basta querer que um material cumpra determinada função; é necessário compreender se ele pode realizá-la, e de que maneira.

O mesmo cuidado vale para o consumo. Quando chamamos alguma coisa de propósito, estamos descrevendo o uso que fazer dela, não o fim de sua existência. Depois de sair das nossas mãos, ela continua em algum lugar, produzindo consequências.

Por isso, atender às nossas necessidades, não deveria significar usar sem pensar. Podemos criar com inteligência, aproveitar melhor, reparar quando possível e descartar com responsabilidade. O respeito pelas coisas também aparece no modo como lidamos com elas, depois que deixam de nos servir.

4. O fato de todas as coisas existirem.

As coisas não começam a existir quando olhamos para elas, nem desaparecem quando deixamos de prestar atenção. Uma planta desconhecida cresce sem saber seu nome. Uma pedra permanece no fundo de um rio sem precisar receber um preço. A existência não depende do nosso reconhecimento.

Pode parecer óbvio, mas muitas vezes agimos como se apenas aquilo que nos interessa, tivesse lugar no mundo. Percebemos o que nos agrada, buscamos o que nos beneficia, e afastamos do olhar o que nos incomoda.

A natureza, porém, não se organiza para satisfazer todas as nossas preferências. A chuva que atrapalha um passeio, pode ser a mesma que sustenta uma plantação. O barro que suja os sapatos, pode oferecer condições para que uma semente germine.

Quando algo nos desagrada, lembremo-nos: o desagrado é uma experiência nossa. Ele é real, mas não resume a realidade daquilo que o provocou. As coisas continuam tendo suas características, suas relações e sua existência, para além do nosso julgamento.

5. E se pudéssemos ignorar alguma coisa, o que ignoraríamos?

Talvez escolhemos ignorar a sujeira, o desgaste, os obstáculos e tudo aquilo que interrompeu nossos planos. Seria confortável viver olhando apenas para o que é bonito, agradável e fácil.

Mas o que perderíamos com essa escolha?

Quem ignora o desgaste, pode deixar de cuidar do que precisa de reparo. Quem ignora o lixo, não elimina o lixo; apenas deixa de acompanhar seu destino. Quem ignora os limites da natureza, continua sujeito às consequências de ultrapassá-los.

Isso não significa que precisamos prestar atenção em tudo, o tempo inteiro. Nossa atenção é limitada, escolher prioridades faz parte da vida. O cuidado está em não confundir “não posso olhar para isso agora” com “isso não tem importância”.

Também não precisamos gostar de tudo. Respeitar a existência das coisas, não nos obriga a aceitar passivamente aquilo que causa danos. Podemos proteger, concordar e transformar. A diferença é agir a partir da compreensão, em vez de acreditar que nossa exclusão, basta para apagar uma realidade.

6. A relevância de tudo o que existe.

Muitas vezes, a importância de algo, só aparece quando ele falta. A falta de um pequeno parafuso, pode comprometer o funcionamento de uma máquina inteira. Um simples prego pode sustentar uma peça essencial de uma construção. Elementos quase invisíveis do solo, participam de processos que permitem o crescimento das plantas, e transformação de matérias.

A vida é feita de relações, e nem sempre conseguimos enxergar todas elas. Por isso, declarar alguma coisa absolutamente inútil, pode revelar mais sobre o limite do nosso conhecimento, do que sobre a coisa em si.

Podemos buscar um sentido ou um propósito no que existe, ainda que nem sempre seja possível afirmar, que tudo tenha um objetivo definido. Reconhecer essa incerteza não diminui o respeito; ao contrário, convida à humildade.

Além disso, a utilidade para nós, não precisa ser uma única medida de relevância. Uma árvore não se resume àpenas a madeira que oferece, assim como um rio não se resume àpenas a água que podemos vê-la. Ambos participam de uma realidade maior do que as nossas necessidades imediatas.

7. A beleza, o incômodo e a vontade de controlar.

É fácil respeitar uma paisagem bonita, quando ela corresponde à imagem que desejamos encontrar. Mais difícil é aceitar a folha seca, o galho torto, o chão úmido e as marcas do tempo como partes da mesma paisagem.

Gostamos da flor, mas nem sempre gostamos dos espinhos, ou da terra nas mãos. Admiramos uma árvore grande, mas podemos nos incomodar com as folhas que ela espalha. Desejamos os resultados, enquanto rejeitamos os processos que os tornam possíveis.

Talvez nossa vontade de controlar tudo, nos faça perder a beleza daquilo que não foi planejado por nós. Nem toda curva é um defeito. Nem toda mudança é uma perda. Nem tudo o que contraria a nossa expectativa, precisa ser corrigido.

Aprender a distinguir o que pede transformação, daquilo que pede apenas compreensão, é um exercício de maturidade. Podemos ter desejos e fazer planos, sem transformar nossas preferências em leis, que o mundo todo, teria a obrigação de cumprir.

Conclusão: compreender antes de exigir.

Refletir sobre “As Coisas Como Devem Ser”, é considerar que a vida não pode ser reduzida ao nosso gosto, ao nosso interesse ou à nossa ideia de valor. Existem coisas duradouras e passageiras, caras e baratas, determinadas e incômodas. Nenhuma dessas classificações, isoladamente, explica toda a importância do que existe.

O ouro tem seu lugar, e o prego também. A pedra oferece resistência, enquanto a água, em sua continuidade, pode transformá-la. Cada exemplo nos lembra que conhecer as características das coisas, é o primeiro passo para conviver melhor com elas, e utilizá-las com responsabilidade.

Respeitar a vida e as coisas do mundo, não significa abrir mão de transformar a realidade. Significa abandonar a pretensão de que, apenas o que desejamos merece existir. Antes de desprezar, podemos observar; antes de usar, compreenda; antes de descartar, considere as consequências.

Se a existência de cada coisa, pode participar de relações que ainda desconhecemos, por que não aprendemos sobre elas o quanto antes? Talvez a vida não se torne exatamente como gostariamos, mas nossa maneira de viver pode se tornar mais consciente, simples e respeitosa.

Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.