Há dias em que a vida parece testar nossa paciência de todas as formas. Uma palavra atravessada, uma atitude injusta, uma falta de compreensão, um gesto de ingratidão ou até uma humilhação inesperada, podem despertar em nós uma vontade quase imediata de reagir no mesmo tom. É da natureza humana sentir raiva, tristeza, indignação, cansaço e vontade de revidar. Porém, é justamente nesses momentos que a gentileza, revela sua força mais bonita: ela não aparece apenas quando tudo está bem, mas principalmente quando escolhemos não permitir que a dureza e dificuldades do mundo prolifere, e atinja também o nosso coração.
Ser gentil não significa ser bobo, fraco, ingênuo ou aceitar tudo sem limites. Ser gentil é saber agir com respeito, mesmo quando o impulso seria revidar. É ter consciência de que a educação, a caridade, a prudência e o perdão podem nos proteger de conflitos inúteis, e de arrependimentos futuros. A gentileza, quando verdadeira, ameniza as dores do dia a dia porque, nos impede de carregar pesos desnecessários, e nos ajuda a viver com mais leveza, dignidade e paz interior.
1. Ser gentil apesar de qualquer coisa.
Ser gentil apesar de qualquer coisa é uma escolha que exige maturidade. É fácil ser educado quando somos bem tratados, quando tudo acontece conforme esperamos, e quando as pessoas ao nosso redor ouvem, e atendem às nossas expectativas. O verdadeiro desafio surge quando somos contrariados, ignorados, mal interpretados ou feridos de alguma forma.
Nesses momentos, a gentileza se torna uma decisão consciente. Ela nasce quando respiramos fundo antes de responder, quando escolhemos não humilhar quem nos humilhou, quando evitamos devolver ofensa com ofensa. Ser gentil, mesmo diante da grosseria, não significa concordar com o erro do outro, mas sim não permitir que esse erro determine a nossa conduta.
A gentileza também deve ser praticada conosco. Muitas vezes somos duros demais com nossas próprias falhas, cobramos perfeição, remoemos erros e nos tratamos com palavras, que jamais diríamos a alguém que amamos. Ser gentil consigo mesmo é considerar limites, aceitar processos e compreender que também estamos aprendendo. Quando aprendemos a nos tratar com mais carinho, torna-se mais natural oferecer o mesmo tratamento aos outros.
2. Estar sempre atento aos nossos deslizes e evitá-los a todo custo.
Todos nós temos momentos de impaciência, orgulho, dureza e inquietação. Às vezes, uma frase dita no calor da emoção, pode causar mais estragos do que imaginamos. Por isso, estar atento aos nossos próprios padrões, é uma forma de responsabilidade conosco e com os outros.
É importante perceber quando estamos a agindo por impulso. A ira, quando não vista, pode nos conduzir a atitudes que ferem, afastam e criam conflitos difíceis de reparar. Muitas desavenças começam não porque alguém tinha razão absoluta, mas porque ninguém conseguiu parar no momento e refletir melhor, antes de reagir.
Evitar nossos deslizes não é fingir que não sentimos nada. É apenas reconhecer que nem tudo, precisa de atitude imediata, e na mesma altura. Podemos sentir raiva, e ainda assim escolher o silêncio. Podemos ficar magoados, e ainda assim conversar com respeito. Podemos discordar, e ainda assim preservar a educação.
Essa visão sobre nós mesmos, é uma forma de crescimento. Ela mostra que estamos comprometidos com uma vida melhor, não apenas para nós, mas também para quem convive conosco.
3. Quando os danos não correspondem à nossa integridade física e moral.
Nem toda provocação é na verdade uma realidade. Nem toda ofensa merece resposta a altura. Nem toda situação de desconforto precisa se transformar em batalha. Existem situações que, embora nos incomodem, não atingem de fato nossa integridade física ou moral. São pequenos atritos, pequenos deslizes, palavras mal colocadas, atitudes inconvenientes ou comportamentos que não valem o preço da nossa paz.
Saber diferenciar o que realmente precisa ser enfrentado, daquilo que pode ser deixado para trás, é sinal de sabedoria. Muitas vezes, insistimos em discutir apenas para provar que estamos certos, para satisfazer nosso orgulho, ou para não parecer que “perdemos”. No entanto, há vitórias que custam caro demais. Ganhar uma discussão pode significar perder a tranquilidade, a integridade, a harmonia e até relações importantes.
Abrir mão da arrogância e da ignorância não é se diminuir. Pelo contrário, é se engrandecer. É entender que nossa dignidade não depende de responder a tudo. Há momentos em que o silêncio vira respeitoso, a retirada prudente e o perdão íntimo, são atitudes muito mais fortes do que qualquer acontecimento impulsivo. As pessoas geralmente sabem quando erram com os outros, e muitas vezes a dor, e o desconforto da descoberta desse erro, já se torna o preço muito alto, que aquela pessoa paga por essa ação errada.
Essa descoberta e desconforto gerado por aquela ação impensada, imprudente, ou malvada, servirá como uma forma de reflexão, e de aprendizado para aquele que a executou. E isso pode representar um preço alto já pago.
4. Estar atento e não permitir que a Ira nos domine.
A ira é uma emoção intensa. Quando ela domina, nossa visão se estreita, nossas palavras se tornam mais duras, e nossas atitudes podem fugir do nosso controle. Por isso, um dos maiores exercícios de gentileza, é aprender a não ser governado pela raiva.
Há situações em que a vontade de revidar é grande. Queremos dizer algo que machuque, queremos mostrar ao outro, o tamanho do erro que cometeu, queremos devolver na mesma medida. Mas é nesse intervalo entre sentir e agir, que mora a nossa liberdade e grandeza. Podemos escolher. Podemos compensar. Podemos nos perguntar: “Essa resposta vai melhorar algo, ou apenas aumentar a dor?”
Agir com calma, prudência e resiliência não é fácil, mas é libertador. Quando não permitimos que nos controlemos pelas ações de outros, preservamos nossa consciência clara e viva. Evitamos arrependimentos e impedimos que o comportamento do outro, nos transforme em alguém que não somos, ou que não desejamos ser.
A gentileza, nesse sentido, é uma forma de autocontrole. Ela nos lembra que não precisamos entrar em toda guerra, para provar nossa força. Algumas batalhas são vencidas justamente, quando decidimos não lutar.
5. Saber respeitar, perdoar e aceitar as complexidades humanas.
Cada pessoa carrega uma história, que nem sempre conhecemos. Por trás de uma resposta ríspida, pode existir cansaço, sofrimento, medo, insegurança ou uma dor ou mágoa antiga. Isso não justifica atitudes desrespeitosas, mas nos ajuda a olhar para o outro com mais humanidade.
Quando lembramos que também somos falhos, torna-se mais fácil praticar a compreensão. Todos nós já erramos, já conversamos, já gritamos, já respondemos sem pensar, já magoamos alguém, já fomos injustos em algum momento. Reconhecer isso não nos enfraquece; ao contrário, nos torna mais humildes.
Respeitar e perdoar não significa aceitar abusos, ou permanecer em situações que nos fazem mal. O perdão não exige que deixemos de estabelecer limites. Isso significa, muitas vezes, não permitir que esse perdoar nos aprisione. Significa liberar o coração do peso, de reviver continuamente uma dor, que não precisamos carregar.
Aceitar as complexidades humanas é compreender que ninguém é simples por inteiro. Somos feitos de virtudes e falhas, luzes e sombras, forças e fragilidades. Quando enxergamos isso, nossas atitudes se tornam menos agressivas e mais compassivas.
6. Quando estou bem comigo, apesar de tudo.
Estar bem consigo mesmo, apesar de tudo, é uma das maiores conquistas na vida. Não significa viver sem problemas, sem injustiças ou sem decepções. Significa manter dentro de si um lugar de equilíbrio, mesmo quando o lado de fora está confuso.
Quando estamos bem conosco, não sentimos tanta necessidade de revidar, provar, disputar ou vencer a qualquer custo. Nossa paz se torna mais importante, do que a aprovação dos outros. Nossa consciência passa a valer mais, do que uma resposta atravessada. Nossa dignidade se fortalece, quando percebemos que podemos ser prejudicados, ou até humilhados, mas ainda assim, não precisamos abandonar a nossa educação e o nosso respeito.
Há uma grandeza silenciosa, em quem consegue atravessar situações difíceis, sem se igualar à agressividade alheia. Essa grandeza não é vaidade, é firmeza interior. É saber que nossas atitudes falam por nós. É compreender que responder com respeito, não apaga a injustiça sofrida, mas impede que ela nos transforme em pessoas amargas.
Estar bem consigo é poder deitar a cabeça no travesseiro, e saber que, mesmo diante das dificuldades, escolhemos o caminho mais digno.
Conclusão: A gentileza como força, proteção e caminho de paz.
A gentileza que ameniza as dores do dia a dia, não é uma gentileza frágil ou superficial. Ela é firme, consciente e profundamente humana. Ela aparece quando, escolhemos não nos diminuir diante da grosseria, quando não nos igualamos, aqueles que não conseguem se controlar, quando não permitimos que a ira e o orgulho, conduzam nossas atitudes.
Ser gentil é um gesto de respeito pela vida, pelos outros e por nós mesmos. É uma maneira de evitar batalhas funestas, desgastantes e sem sentido. Muitas vezes, o maior ganho não está em vencer uma discussão, mas em preservar a paz. Não está em dar a última palavra, mas em manter a serenidade. Não está em provar força pela agressividade, mas em demonstrar maturidade pelo autocontrole.
A vida humana na terra já traz dificuldades suficientes. Cada pessoa enfrenta lutas, que nem sempre são visíveis. Por isso, sempre que possível, escolher a educação, a piedade, a prudência e o perdão é também uma forma de tornar o caminho menos pesado.
No fim, a gentileza não apaga todos os problemas, mas suaviza muitas dores. Ela nos protege de queixas, nos afasta de conflitos negativos, e nos aproxima de uma existência mais leve. E, acima de tudo, ela nos lembra que podemos ser firmes, sem sermos cruéis, podemos impor limites, sem perder a delicadeza e podemos seguir em frente, sem carregar o peso da vingança.
Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.