A vida entre desejos, conquistas e o vazio das mãos vazias.
A vida humana, vista de certa distância, parece mesmo uma espécie de comédia divina: nascemos sem nada, passamos boa parte da existência correndo atrás de coisas, disputando espaços, acumulando objetos, títulos, propriedades, contas, compromissos e preocupações — e, no fim, partimos como chegamos: sem levar nas mãos nenhum dos bens que tanto nos custaram tempo, saúde, afeto e paz.
É curioso, e ao mesmo tempo profundamente humano, perceber como a nossa passagem pelo mundo é breve, mas os nossos desejos parecem infinitos. Muitas vezes, vivemos como se fôssemos ficar aqui para sempre. Construímos, compramos, trocamos, substituímos, reformamos, acumulamos. E quando finalmente alcançamos algo que parecia necessário, logo surge outra necessidade, outro desejo, outra comparação, outra meta.
A “Divina Comédia Humana” talvez seja justamente essa: a grande encenação da existência, na qual o ser humano corre sem parar atrás de coisas que nem sempre preenchem aquilo que lhe falta por dentro. E, enquanto corre, muitas vezes esquece de viver.
1. A Linha de Chegada Que Sempre se Move.
Desde cedo, somos ensinados a perseguir uma linha de chegada. Primeiro, é preciso estudar para “ser alguém na vida”. Depois, consiga um bom emprego. Em seguida, compre uma casa, um carro, forme uma família, tenha estabilidade, cresça profissionalmente, troque o carro por um melhor, a casa por uma maior, o celular por um mais novo, a vida simples por uma vida “mais completa”.
O problema é que essa linha de chegada relatada não permanece no mesmo lugar. Quando chegamos perto dela, ela se move. Quando conquistamos o que desejávamos, aparece outro objetivo. Quando conseguimos o que antes parecia suficiente, chegamos a acreditar que ainda falta algo.
Assim, muitos passam a vida inteira correndo atrás de uma linha de chegada que nunca é alcançada. A felicidade fica sempre para depois: depois da promoção, depois da compra, depois da viagem, depois da aposentadoria, depois da próxima conquista. E, nesse intervalo, a vida vai comemorar sem pedir licença.
2. A Intensa Busca Para Conquistar o Que Muitas Vezes se Torna Inútil Rapidamente.
Existe uma intensidade quase febril na maneira como buscamos certos bens. Trabalhamos mais, dormimos menos, sacrificamos fins de semana, abrimos mão de encontros, de descanso e até da saúde para conquistar algo que, muitas vezes, perde o valor pouco tempo depois.
Um objeto desejado com grande ansiedade pode, em poucos meses, virar apenas mais uma coisa guardada em uma gaveta, encostada em um canto ou esquecida dentro de casa. Aquilo que parecia trazer satisfação definitiva se torna comum, ultrapassado ou simplesmente desnecessário.
A sociedade do consumo alimenta essa pressa. O novo envelhece rápido. A moda muda. A tecnologia avança. O que ontem era símbolo de status hoje já parece insuficiente. E o ser humano, preso nesse ciclo, passa a confundir novidade com felicidade, posse com realização, quantidade com sentido.
3. Lutando Contra Tudo e Contra Todos Nessa Busca Incansável
Na busca por conquistas de materiais, muitas pessoas entram em uma espécie de batalha constante. Lutam contra o tempo, contra a concorrência, contra as próprias limitações, contra colegas, familiares, vizinhos e até contra si mesmas.
A vida passa a ser vista como uma disputa. Quem tem mais? Quem chegou mais longe? Quem conquistou mais? Quem parece mais bem sucedido? E, nesse jogo de comparações, o outro deixa de ser companhia e passa a ser medida. A alegria do outro incomoda, a conquista alheia pressiona, a simplicidade parece fracasso, a vida simples vai pouco a pouco perdendo o sentido.
Essa luta incansável pode transformar o ser humano em alguém duro, cansado e desconfiado. Na tentativa de ganhar o mundo, ele perde a delicadeza. Na vontade de possuir mais, perde a capacidade de partilhar. Na pressa de vencer, esquece que viver não deveria ser apenas competir.
4. Quando a Vida Começa a Não Fazer Sentido Sem Acúmulo de Bens.
Há um momento em que o acúmulo deixa de ser apenas um hábito e passa a se tornar uma necessidade constante e ilusória . A pessoa já não se confirma pelo que é, mas pelo que possui. Seu valor parece depender da casa onde mora, da marca que usa, do carro que dirige, dos lugares que frequenta ou da imagem que apresenta aos outros.
Quando isso acontece, a vida começa a não fazer sentido sem aquisição. O silêncio incomoda, a mão começa a coçar em posse dos valores e reservas, ou ainda do saldo do crédito no cartão, ou do limite estabelecido pela financeira. Nesse nível de consumismo, a simplicidade parece pobreza. O descanso parece uma perda de tempo. A ausência de compras parece vazia. É como se a existência precisasse ser constantemente preenchida por objetos para esconder uma falta mais profunda.
Mas nenhum bem material consegue, sozinho, dar sentido à vida. Pode trazer conforto, segurança e até prazer momentâneo, mas não substitui afeto, propósito, saúde emocional, espiritualidade, amizade, consciência tranquila e paz interior, e muitas vezes isso, o dinheiro e a riqueza não são capazes de oferecer.
5. Quem Muito Espreme, Escapa Entre os Dedos.
Há uma sabedoria simples na ideia de que quem aperta demais acaba perdendo. Quem tenta controlar tudo, possuir tudo, garantir tudo e segurar tudo pode perceber, tarde demais, que a vida escapa justamente por entre os dedos.
O excesso de preocupação com bens pode roubar aquilo que não se compra: tempo com os filhos, conversas com os amigos, refeições tranquilas, noites de sono, momentos de contemplação, alegria sem motivo, presença verdadeira.
Muitas pessoas passam a vida espremendo o mundo para tirar dele o máximo possível. Querem mais rendimento, mais resultado, mais patrimônio, mais produtividade. Mas, nessa pressão contínua, deixa escapar o essencial. Afinal, não basta acumular dias; é preciso viver os dias. Não basta ter coisas; é preciso ter consciência do que essas coisas custam, e o que elas podem proporcionar realmente.
6. Será Que Tenho Mesmo a Necessidade de Aquisição de Tudo Isto?
Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes que alguém pode fazer a si mesmo: eu realmente preciso de tudo isso?
Preciso comprar ou estou tentando aliviar uma ansiedade? Preciso trocar ou estou apenas sendo influenciado? Preciso acumular ou tenho medo de perder? Preciso mostrar aos outros e estou buscando aprovação? Preciso realmente possuir tudo isso, ou posso simplesmente viver a experiência?
Nem toda aquisição é errada. O problema não está em ter bens, mas em ser dominado por eles. O problema não está em desejar conforto, mas em transformar o conforto em prisão. O problema não é melhorar de vida, mas acreditar que a vida só melhora quando se compra mais.Viver uma vida digna isso sim é importante, mas é necessário distinguir dignidade de ostentação.
Questionar a necessidade das coisas é um ato de liberdade. É sair do piloto automático. É perceber que nem todo desejo merece ser obedecido e que nem toda oferta corresponde a uma necessidade real.
Conclusão:
Antes de acumular bens, é preciso estudar a própria necessidade
A “Divina Comédia Humana” revela, de forma quase irônica, uma contradição da existência: o ser humano se esforça intensamente para juntar bens que não poderão levar consigo. Durante sua breve estadia no mundo, corre atrás de objetos, posições e aparências, mas no fim permanece diante da verdade mais simples: tudo o que é material fica.
Por isso, torna-se necessário refletir, com antecedência, sobre a real necessidade de tantos bens. Antes de adquirir, é preciso estudar o motivo da aquisição. Antes de comprar, pergunte se aquilo é essencial, útil, durável ou apenas fruto de impulso, em comparação com a vaidade. Antes de acumular, avalie se é para melhorar a qualidade de vida, ou apenas mais acumulo de responsabilidade, obrigação, manutenção, preocupação e desgaste desnecessário.
Viver bem não significa viver sem nada, mas também não significa possuir tudo. O equilíbrio está em confiar no valor que você tem como pessoa, e não no valor das coisas que possui, e não permitir que elas ocupem o lugar do sentido da vida. Bens podem servir ao ser humano, mas não devem comandá-lo.
No fim, talvez a maior riqueza seja aquela que não cabe em armários, cofres, bancos, contratos ou escrituras e etc: a paz pertence à quem soube escolher a serenidade, à quem não se deixou escravizar pelos excessos, e tem a consciência de quem entendeu que a vida vale mais pelo que se vive, do que pelo que se acumula.
Autor: Raimundo J. Lopes - Mentor do Método Reconexão Voluntária Com o Desejo.